Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Sem querer querer

Você chegou chegando
E tomou conta do meu peito
Agora sai andando
E não me dá respeito

Você é dono do seu show
E sempre me deixa de fora
Você me enganou
Arrumou as malas e foi embora

Você é grosso e egoísta
E ainda me chama de seu amor
Você é estúpido e moralista
E então me chama de flor

Eu não vou perder meu tempo com você
Você não merece isso
Não vou escrever o que você não lê
E continuar sendo seu rabisco

Vou evitar o seu olhar
Do mesmo jeito que você evita o meu
Eu vou observar
E vou tirar de mim o que é seu

Não sei se você entende
Pois pra você nem sempre foi tão claro
Você não me compreende
E não passa de um otário

A gente segue o mesmo rumo
Mas por falta de escolha
Tiro de você seu sumo
E uso de tinta na folha

Então vá embora
E chega de ladainha
Porque quero você agora
Me chamando de sua rainha




Resposta: aqui

Quarta-feira, 12 de Março de 2008

A Valsa

Estava sozinha em seu quarto. Aquele quarto que dividia com ele, era na verdade, a única coisa que ainda tinham em comum. Começou a tirar do guarda-roupa lembranças antigas, que já não faziam sentido. Fotos da lua-de-mel. Já fora feliz com seu marido, sem dúvida, mas já parecia uma lembrança muito distante. No álbum de fotografias, os almoços aos domingos, que ela preparava com tanto gosto e que já não existiam desde a morte de seu primogênito. Uma família amarga, era assim que ela definia sua família para suas colegas de trabalho.

Um disco. Lembrou de suas canções prediletas e das emoções que já não lembrava existir. Procurou afoitamente pela antiga vitrola. A vitrola de grandes valsas esquecidas, empoeirada e escondida no porão, assim como sua vida.

Um arrepio lhe desceu a espinha ela sentiu voltar o tempo. Colocou o disco na vitrola. Uma lágrima escorreu por sua face antes mesmo da música começar a tocar. Aquela lágrima que lhe faltou naquela noite fria quando reconheceu o corpo de seu filho deitado no chão, com duas balas fincadas no peito. A guerra. A guerra civil, que se dizia não ser guerra. A guerra que ela enfrentou. A guerra que a secou, que secou sua família.

Procurou um vestido de festa, já com cheiro de mofo. Vestiu-o. Ajeitou a agulha na música certa, quase que instintivamente, como costumava fazer.

"Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar" *

A porta rangeu. Olhou assustada e tentou conter as lágrimas. Reconheceu aqueles olhos chorosos, antes cansados. Seu marido. Abraçou-o como não fazia há anos. Choraram, e viram cores. As cores da vida.

"E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar" *

E no dia seguinte, domingo, preparou o almoço. E convidou seus filhos para participar. Eles sorriram e conversaram e lembraram que eram felizes.

"E o dia amanheceu
Em paz" *










* Valsinha - Chico Buarque

Sexta-feira, 7 de Março de 2008

O lado errado da vida certa

Eu nasci errada.

O lado direito é o lado certo. O próprio nome já diz, é o lado "direito". Jesus está sentado à direita de Deus pai todo poderoso. Você pode ser meu braço direito. Eu sou uma pessoa direita. Na política, sou de direita.E a esquerda? A esquerda é o lado rebelde,o lado "errado". Meu bisavô obrigou meu avô, que nasceu canhoto, a aprender a escrever com a mão direita. Mão esquerda é coisa do demônio. Meu tio recebeu a visita de autoridades policiais na época da ditadura por ser de esquerda, e meu avô queimou todos seus livros comunistas. Acho que Deus preferia ficar sozinho a ter alguém do seu lado esquerdo. E o braço esquerdo não passa de uma parte do corpo sem coordenação.

Eu nasci canhota.

E bem, meu pai me deixou ser assim. Sempre gostei de ser canhota. Ser destro é muito comum. Então,concluo que nasci errada. Nasci pra fazer coisas erradas. E como toda boa rebelde, contrariei as leis e fiz tudo certo. Tudo "direito". Acho que chegou minha vez de ser canhota mesmo. A gente não consegue negar a raiz por muito tempo, certo?

Então eu tenho a raiz errada. Daquelas que pulam para fora da calçada causando destruição. Que seja, a calçada é que não deveria estar ali. E se não me cabe, empurro mesmo. Posso dividir o espaço com você, só não me empeça de crescer, ok.

Se crescer é aprender com os erros, levar uma vida direita te faz imaturo. E quem é o mediador do que é certo ou errado, afinal?

Pra falar a verdade, pouco me interressa, desde que você não queira este papel na minha vida.


Eu medio as minhas verdades.

Quarta-feira, 5 de Março de 2008

Quando eu faço arte não me importo com a recepção.
Se o que eu faço é fato, sua opinião é bem-vinda.
Arte eu faço pra mim. Notícia, pra você.
A minha arte é a escrita, aqui escrevo sem barreiras, além daquelas que eu mesma, inconcientemente, me imponho.
A arte eu trago de algum lugar dentro de mim. Coisas que ficaram marcadas, coisas minhas. A notícia entra pelos meus ouvidos, olhos e saem através da minha boca, mãos.
Minha arte fala de mim, minha notícia, de você.
Minha arte pode doer, minha notícia, causar pesar.






Minha arte







Minha notícia





Minha






Minha





Mas de você







Não de mim








Não de mim





Minha arte são notícias minhas contadas a mim mesma.

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

Lágrimas

É um aperto sufocante, não consigo fingir que não existe
Me incomoda a cada instante , logo, fico triste
Finjo que não são bem vindas, mas no fundo as quero aqui
Elas insistem e insistem, querem sair
Respiro fundo, as guardo no peito
Mas elas me dizem com todo respeito:
"é hora de sair, esatamos prontas"
eu não consigo resistir, fico até tonta
Aí já não aguento mais, elas vêm invonluntariamente
Então vai tudo embora, tudo como água corrente

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Desacreditada

Tento escrever algo mas nada me vem. Na verdade, acho que nada convém, rimando mesmo. Parece que os assuntos já estão discutidos o bastante, e não querendo ser repetitiva, cansativa, redundante, prefiro me calar. As pessoas falam demais. Sempre ouço uma frase da qual odeio: “Já virou Brasil”, e eu aposto que você sabe o significado. Odeio, odeio mesmo. E odeio porque quem fala são brasileiros que não tiram a bunda gorda do sofá. Brasileiros que só querem saber de seguro-desemprego, bolsa-família e fome-zero. Não sou contra os programas, mas é inacreditável como as pessoas conseguem se acomodar a eles. Se o Brasil é assim você tem culpa disso. Então, ao invés de reclamar, tenha vergonha na cara e faça alguma coisa pra mudar. Porque foi você que deixou isso acontecer. Foi você que não denunciou a corrupção, e nem se quer ligou pra ela, pois não te afetava diretamente. Foi você que continuou aí reclamando. Não vou começar com aquelas historinhas de livros de auto-ajuda que dizem “vá trás que você é capaz”. A vida não é tão bela assim. E falando em livros de auto-ajuda, meu Deus, precisamos banir esta espécie. É mais ficção do que os livros de ficção, afinal, nos livros de ficção você sabe que está lendo uma mentira. Ninguém aqui é líder, ninguém é vencedor. Você nem sabe o que é ser vencedor. Ser vencedor é trabalhar numa grande empresa, ganhar rios de dinheiro e viajar nas férias com as crianças? Me poupe, não posso crer nesse lenga-lenga. Vamos à realidade, correr atrás do atraso. Mas com a obesidade que você acumulou, será necessário mais força de vontade.

Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

O que tem tudo e não tem nada

Vamos fazer um trato
Eu te empresto este dinheiro
Em troca do seu anonimato

Vamos fazer assim
Eu te dou o meu reino
E você gosta de mim

Vamos lembrar disto
Eu tenho tudo
Ma não tenho isto

Vamos fazer que é faz-de-conta
A gente acredita
Depois desaponta

Vamos dividir meu desgosto
Eu te dou o meu
E você acha de bom gosto

E então é tudo assim
Eu te dou o que me sobra
Você se aproveita de mim

E então parece mentira
O jogo de uso e abuso
Você me pega e não atira

Você me segue sem saber
E seja onde for
Sabe que vou sofrer

Mas eu continuo aqui
E quando precisar
Pode me pedir